She-ra e a Bücherverbrennung: Quando a Horda Odeia os Livros

Perseguir livros, queimar livros, censurar, recolher, proibir. São as vias mais comumente usadas em situações onde o detentor do poder tem por prioridade silenciar os espaços onde possam nascer oposições, onde possam se construir críticas às suas posturas. De imensa infelicidade, é bastante comum reconhecer essa prática ritualística na História política dos regimes autoritários. A ficção também fez uso dessa conduta alienante, criticando a censura como instrumento da vilania, num episódio da animação de She-ra nos anos de 1980!

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A listagem de autores e livros proibidos, impressa em 1557 por ordem do Papa Paulo IV.

Todo regime autoritário, de ideologia doutrinária, se vale de quaisquer silenciamentos às vozes dissonantes. A rainha Hatshepsut, após seu reinado de sucesso no século XV a.C., sofreu uma tentativa de apagamento de sua existência pelo seu sobrinho, Tutemósis III, ressentido do período em que não pôde governar por ser infante. Não apenas como tentativa de apagar adversários políticos, a destruição da memória pode ser uma fatalidade das guerras. A biblioteca de Alexandria, centro de imensa riqueza humana, localizada no Antigo Egito, foi queimada pelo imperador romano Júlio César, em 48 a.C. Na estrada das chamas, o fogo foi usado com bastante rigor pelos diversos tribunais eclesiásticos católicos do mundo medieval, as chamadas Inquisições, para a queima de diversos livros definidos como perigosos para o regime teocrático (como pode ser lido no livro O Queijo e os Vermes, do historiador Carlo Ginzburg).

Noutro lugar e tempo, na Salvador de 1912, por conta de rixas políticas entre liberais e conservadores, o presidente e marechal Hermes da Fonseca, fazendo uso de canhões do Forte São Marcelo, ordenou ao general Sotero de Menezes o ataque por 4 horas à capital baiana favorável à ascensão política de José Joaquim Seabra. A Biblioteca Pública, fundada 101 anos antes, sofreu imensurável perda através de granadas lançadas contra o espaço, neste evento. Salvador foi palco, também, de outro ritual de destruição de livros pelo fogo: em 19 de novembro de 1937, a Comissão Executora do Estado de Guerra, por determinação do interventor, ordenou a queima de quase dois mil livros, considerados “propagandistas do credo vermelho”, atingindo diretamente as obras de Jorge Amado, promovendo sua prisão, exílio e censura. Uma chama imensa, com fumaça preta, cortou verticalmente o cenário baiano da Escola de Aprendizes Marinheiros, onde hoje é o Comando do Segundo Distrito Naval, na Conceição da Praia, colocou em prática a destruição desse patrimônio cultural e artístico. Durante o Regime Militar após golpe de 1964, com a ladainha de perigo da ameaça comunista, já presente durante os governos anteriores, como o do populista Jânio Quadros, é intensificada durante o Ato Institucional de número 5 com o Conselho Superior de Censura exercendo forte controle sobre a população e a produção de discursos e saberes.

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Aproximadamente 25 mil livros sendo queimados em Berlim, em 10 de maio de 1933.

Talvez, dessas eventualidades contra a memória e a educação, entre acidentes e intensões de Damnatio Memoriae (“Condenação da Memória”, segundo a legislação romana antiga), a destruição nazista de livros é a mais marcante. Chamada em alemão de Bücherverbrennung, ou seja, “queima de livros”, a política de silenciamento nazista tinha a clara e objetiva intensão de pureza ideológica, protegida de quaisquer interferências no seu saber determinado (e determinante). Como numa inquisição, as obras de autores perseguidos politicamente (ou de ideias que ameaçavam seu conservadorismo) eram destruídas pelo fogo em praças públicas, como ocorreu em Munique e Berlim meses depois da ascensão nazista, em 1933. As minorias perseguidas pelo regime supremacista foram os alvos prediletos: judeus, sociólogos, historiadores, psiquiatras, e muitos romancistas. Entre autores não-ficcionais como Karl Marx, Walter Benjamin, dentre outros, estavam autores de ficção, como Herman Hesse, Victor Hugo, Oscar Wilde, como exemplos, para mostrar que a fantasia também causava desgosto aos queimadores de livros.

Com toda essa contextualização histórica, uma narrativa ficcional escolheu o maneirismo intencional autoritário de queima de livros para produzir sua crítica. A animação de She-ra, produzida entre 1985 e 1986, narra as aventuras de uma princesa protagonista destituída de seu poder político por um regime ditatorial chamado Horda. A série era uma estratégia de produto da empresa de brinquedos Mattel, buscando ampliar oportunamente o sucesso do produto anterior da mesma franquia, He-man. Seu público alvo era feminino. De todo modo, o teor político de She-ra sempre ficou evidente na condição de rebelião contra as opressões da Horda, liderada pelo vilão Hordak. Só isso já dá pano para manga para se criticar regimes autoritários e toda a ideologia e conduta que lhes favorecem.

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Membro da Horda fazendo presença numa sala de aula para intimidar uma professora.

O regime autoritário da Horda só pode ser mantido através de uma agenda política que buscasse no revisionismo histórico e na censura os meios de construir sua ideologia. Um episódio centralizou tudo isso, inclusive a destruição dos livros. O episódio de número 26 da primeira temporada, de outubro de 1985, dirigido por Ernie Schmidt e escrito por Leslie Wilson, é chamado Book Burning (aqui no Brasil, “A Queima dos Livros”). A sala de aula é o campo de batalha para a definição do que é ou não verdade, com os membros da Horda impondo que “de agora em diante, usará somente os livros oficiais da Horda” (como determina um dos membros do regime). Com discursos como “liberta-los dos livros malignos dos rebeldes”, o próprio Hodak em pessoa pronuncia a recolhida e destruição dos livros e até mesmo a nomeação de um novo professor afinado com o regime. Não apenas atacam as instituições de ensino, com prisões de professores e fogueiras feitas de livros, mas também usam diversos meios para promover o medo dos populares, inclusive com as invasões de suas vidas privadas e a intimidação através da ameaça de uso de violência.

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She-ra mostrando que a ferrugem tomou os agentes da Horda, tirando-lhes a funcionalidade.

Quando a doutrina revisionista percebe dificuldades, os regimes autoritários dos discursos abraçam o autoritarismo da força. Assim, “depois de uma semana na zona do medo, essas crianças acreditarão em qualquer mentira que contarmos pra elas”, diz o capataz da Horda escolhido por “notório saber” para exercer a função de professor, após anunciar a mudança do regime educacional e a inclusão de um sistema educacional estruturado ao regime, a Escola Especial da Horda. Obviamente a ficção aqui serve como instrumento narrativo para a educação social combativa aos regimes de opressão representados pela Horda. A vilania sobre o autoritarismo é pertinente para os diversos prismas políticos, quer de esquerda ou direita, que se fundamentem no exercício da democraciaNa lição de moral no final do desenho, a mensagem de um personagem corriqueiro, o Geninho, diz: “as vezes não gostamos das coisas, até serem tomadas de nós”. E acrescenta: “Ser livre para ler qualquer coisa que quisermos é um direito que nunca devemos perder!”.

Queimar livros é banir a neutralidade, buscando o uso instrumental político das verdades impostas. Não permite o debate, pois sabe que nesse confrontamento a derrota do autoritário é certa, é evidente, por isso sua prática precisa se fazer pela censura, pelo assédio ameaçador, pelo uso dos espaços de poder contra o que listam por adversários. Muitas vezes esses adversários são aqueles que são as vozes ou dão as vozes às minorias que escapam aos limites sociais que lhes são prescritos. Seu discurso, falacioso, precisa se amparar em sensacionalismos, acusações de ameaças diversas, para conquistar o apoio de uma parte assombrada da sociedade, quer seja por ignorância, medo ou ódio. Não se trata apenas do absurdo de destruir ou censurar livros, mas fazer tudo isso num ritual social de intimidação.

 

Para saber mais:

DUARTE, Eduardo de Assis. Leitura e Cidadania. Disponível em: https://www.unicamp.br/iel/memoria/projetos/ensaios/ensaio19.html.

SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. No fio da navalha: ditadura, oposição e resistência. In: Brasil: uma biografia. Cia das Letras, São Paulo, 2015.

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